Osteoartrite da ATM: o que é, como se diagnostica e como se trata
A osteoartrite da articulação temporomandibular (ATM) é o desgaste progressivo da articulação da mandíbula. Na maioria dos casos, ela é identificada e tratada antes de precisar de cirurgia — o segredo é o diagnóstico correto por imagem e o tratamento na ordem certa, do mais simples ao mais complexo.
O que é
A ATM é a articulação que liga a mandíbula ao crânio, na frente de cada orelha. Dentro dela existe um pequeno disco de cartilagem que amortece o movimento. Quando esse disco se desloca da posição ou o osso da articulação começa a se desgastar, chamamos de osteoartrite da ATM — um processo parecido com o que acontece em outras articulações do corpo (joelho, quadril), só que na mandíbula.


Animação ilustrativa do movimento da ATM e do desgaste progressivo da superfície articular. Vídeo educativo — não representa resultado de tratamento.
O que acontece dentro da articulação
O esquema abaixo resume as três etapas que explicamos em consulta: a anatomia normal, a artrose subcondral (erosão do osso, desgaste da cartilagem e osteófitos) e o efeito do i-PRF no reparo do tecido.

Sinais de que pode ser isso
- Dor na frente da orelha, principalmente ao mastigar ou abrir bem a boca
- Estalido que, com o tempo, vira ranger/crepitação (som de "areia" na articulação)
- Dificuldade progressiva para abrir a boca totalmente
- Sensação de mandíbula "travando"
- Em casos mais avançados, a mordida pode mudar sutilmente com o tempo
Dois sinais no exame físico têm valor especial: dor ao abrir a boca ao máximo e dificuldade de mover a mandíbula para o lado oposto ao da dor — são os dois achados clínicos mais confiáveis para suspeitar de atividade inflamatória na articulação, segundo estudos que compararam o exame clínico com marcadores do próprio líquido articular.
Como se diagnostica de verdade
Osteoartrite da ATM não se diagnostica só "no olho" — o exame físico direciona, mas quem confirma o estágio é a imagem:
Mostra a posição do disco, se há inflamação (efusão) e o estado dos tecidos moles.
Mostra o osso — se já há desgaste, achatamento ou pequenos "bicos" ósseos (osteófitos).
Isso importa porque osteoartrite de ATM não é uma coisa só. Pesquisas recentes mostram que existem pelo menos dois padrões diferentes na RM: um de predomínio inflamatório (mais efusão, mais dor em crise) e outro de predomínio degenerativo ósseo (mais desgaste estrutural, menos inflamação ativa) — e cada padrão responde melhor a um tipo de tratamento (Tesch, Calcia & De Nordenflycht, 2024).


Imagens de arquivo científico usadas com finalidade educativa.
Como o tratamento é decidido (passo a passo)
O princípio que seguimos é simples: começar sempre pelo menos invasivo, e só avançar quando necessário.
- Placa oclusal (uso noturno, protege a articulação)
- Ajuste de hábitos (evitar abrir demais a boca, mastigar dos dois lados, controlar bruxismo)
- Fisioterapia orofacial
Aqui entra a artrocentese: uma lavagem da articulação feita com agulhas finas, sob anestesia local, em consultório. Ela "limpa" mediadores inflamatórios de dentro da articulação e, dependendo do que a imagem mostrou, pode ser combinada com uma infiltração:
- Ácido hialurônico: melhora a lubrificação, indicado quando o problema é mais o disco "colado"/deslocado.
- PRF/PRP (concentrado de plaquetas do próprio sangue do paciente): estimula reparo, indicado quando já há desgaste ósseo.
A ciência por trás disso é sólida: uma revisão com meta-análise de 13 estudos mostrou que a infiltração de i-PRF reduz a dor e aumenta a abertura da boca de forma consistente, e que combinar i-PRF com a artrocentese é superior a fazer só a artrocentese (Araújo et al., 2025). E o momento importa: quanto antes a articulação com efusão é tratada, maior a chance de resolução completa — esperar "para ver se passa" piora o prognóstico, não melhora (Grossmann et al., 2018).

Artroscopia ou cirurgia aberta só entram quando há falha documentada do tratamento conservador/minimamente invasivo, bloqueio mecânico persistente, ou alterações estruturais mais graves (anquilose, deformidade). Não é o primeiro passo — é o último, e só quando os passos anteriores foram tentados e não resolveram.
Perguntas frequentes
Osteoartrite de ATM tem cura?
Estalido na mandíbula é sempre osteoartrite?
Toda dor de ATM precisa de ressonância?
A infiltração dói muito?
Osteoartrite da ATM é o desgaste progressivo da articulação da mandíbula. O diagnóstico correto por imagem (RM/CBCT) define o padrão predominante (inflamatório ou degenerativo) e guia o tratamento, que começa sempre pelo mais conservador antes de considerar cirurgia.