ATM · Osteoartrite

Osteoartrite da ATM: o que é, como se diagnostica e como se trata

A osteoartrite da articulação temporomandibular (ATM) é o desgaste progressivo da articulação da mandíbula. Na maioria dos casos, ela é identificada e tratada antes de precisar de cirurgia — o segredo é o diagnóstico correto por imagem e o tratamento na ordem certa, do mais simples ao mais complexo.

O que é

A ATM é a articulação que liga a mandíbula ao crânio, na frente de cada orelha. Dentro dela existe um pequeno disco de cartilagem que amortece o movimento. Quando esse disco se desloca da posição ou o osso da articulação começa a se desgastar, chamamos de osteoartrite da ATM — um processo parecido com o que acontece em outras articulações do corpo (joelho, quadril), só que na mandíbula.

Ilustração da anatomia da articulação temporomandibular (ATM) com côndilo mandibular e disco articular
Anatomia da ATM: o disco articular funciona como amortecedor entre o côndilo da mandíbula e o osso temporal.
Animação mostrando o desgaste da articulação temporomandibular na osteoartrite

Animação ilustrativa do movimento da ATM e do desgaste progressivo da superfície articular. Vídeo educativo — não representa resultado de tratamento.

O que acontece dentro da articulação

O esquema abaixo resume as três etapas que explicamos em consulta: a anatomia normal, a artrose subcondral (erosão do osso, desgaste da cartilagem e osteófitos) e o efeito do i-PRF no reparo do tecido.

Infográfico em três painéis: anatomia da ATM, artrose subcondral com osteófitos e efeito do i-PRF no reparo articular
1) Anatomia da ATM · 2) Artrose subcondral: erosão óssea, desgaste da cartilagem e osteófitos · 3) i-PRF: liberação controlada de fatores de crescimento e reparo cartilaginoso.

Sinais de que pode ser isso

  • Dor na frente da orelha, principalmente ao mastigar ou abrir bem a boca
  • Estalido que, com o tempo, vira ranger/crepitação (som de "areia" na articulação)
  • Dificuldade progressiva para abrir a boca totalmente
  • Sensação de mandíbula "travando"
  • Em casos mais avançados, a mordida pode mudar sutilmente com o tempo

Dois sinais no exame físico têm valor especial: dor ao abrir a boca ao máximo e dificuldade de mover a mandíbula para o lado oposto ao da dor — são os dois achados clínicos mais confiáveis para suspeitar de atividade inflamatória na articulação, segundo estudos que compararam o exame clínico com marcadores do próprio líquido articular.

Como se diagnostica de verdade

Osteoartrite da ATM não se diagnostica só "no olho" — o exame físico direciona, mas quem confirma o estágio é a imagem:

Ressonância magnética (RM)

Mostra a posição do disco, se há inflamação (efusão) e o estado dos tecidos moles.

Tomografia (CBCT)

Mostra o osso — se já há desgaste, achatamento ou pequenos "bicos" ósseos (osteófitos).

Isso importa porque osteoartrite de ATM não é uma coisa só. Pesquisas recentes mostram que existem pelo menos dois padrões diferentes na RM: um de predomínio inflamatório (mais efusão, mais dor em crise) e outro de predomínio degenerativo ósseo (mais desgaste estrutural, menos inflamação ativa) — e cada padrão responde melhor a um tipo de tratamento (Tesch, Calcia & De Nordenflycht, 2024).

Ressonância magnética da ATM mostrando osteófito no côndilo mandibular
Osteófitos (setas): pequenos "bicos" ósseos que indicam remodelação degenerativa do côndilo.
Ressonância magnética da ATM mostrando erosão óssea com e sem lesão medular
Erosão da superfície articular, com e sem lesão da medular óssea — achado que muda a agressividade do tratamento.

Imagens de arquivo científico usadas com finalidade educativa.

Como o tratamento é decidido (passo a passo)

O princípio que seguimos é simples: começar sempre pelo menos invasivo, e só avançar quando necessário.

ETAPA 1
Conservador (a grande maioria dos casos começa e resolve aqui)
  • Placa oclusal (uso noturno, protege a articulação)
  • Ajuste de hábitos (evitar abrir demais a boca, mastigar dos dois lados, controlar bruxismo)
  • Fisioterapia orofacial
ETAPA 2
Minimamente invasivo — quando o conservador não é suficiente

Aqui entra a artrocentese: uma lavagem da articulação feita com agulhas finas, sob anestesia local, em consultório. Ela "limpa" mediadores inflamatórios de dentro da articulação e, dependendo do que a imagem mostrou, pode ser combinada com uma infiltração:

  • Ácido hialurônico: melhora a lubrificação, indicado quando o problema é mais o disco "colado"/deslocado.
  • PRF/PRP (concentrado de plaquetas do próprio sangue do paciente): estimula reparo, indicado quando já há desgaste ósseo.

A ciência por trás disso é sólida: uma revisão com meta-análise de 13 estudos mostrou que a infiltração de i-PRF reduz a dor e aumenta a abertura da boca de forma consistente, e que combinar i-PRF com a artrocentese é superior a fazer só a artrocentese (Araújo et al., 2025). E o momento importa: quanto antes a articulação com efusão é tratada, maior a chance de resolução completa — esperar "para ver se passa" piora o prognóstico, não melhora (Grossmann et al., 2018).

Etapas da artrocentese com infiltração na articulação temporomandibular
Artrocentese com infiltração: procedimento ambulatorial, sob anestesia local, com agulhas finas.
ETAPA 3
Cirúrgico — reservado para quando o resto não funcionou

Artroscopia ou cirurgia aberta só entram quando há falha documentada do tratamento conservador/minimamente invasivo, bloqueio mecânico persistente, ou alterações estruturais mais graves (anquilose, deformidade). Não é o primeiro passo — é o último, e só quando os passos anteriores foram tentados e não resolveram.

Perguntas frequentes

Osteoartrite de ATM tem cura?
Não existe “cura” no sentido de reverter o desgaste já instalado, mas há controle muito eficaz da dor e da função — a maioria dos pacientes recupera qualidade de vida sem cirurgia.
Estalido na mandíbula é sempre osteoartrite?
Não. Estalido isolado, sem dor, é comum e muitas vezes não precisa de tratamento. O sinal de alerta é quando o estalido vem acompanhado de dor, trava a boca ou piora progressivamente.
Toda dor de ATM precisa de ressonância?
Não toda — mas quando há suspeita de osteoartrite (dor persistente, crepitação, limitação de abertura), a imagem é o que diferencia o grau do problema e evita tratar “no escuro”.
A infiltração dói muito?
É feita com anestesia local, ambulatorial, e a maioria dos pacientes retoma a rotina no mesmo dia.
Em resumo

Osteoartrite da ATM é o desgaste progressivo da articulação da mandíbula. O diagnóstico correto por imagem (RM/CBCT) define o padrão predominante (inflamatório ou degenerativo) e guia o tratamento, que começa sempre pelo mais conservador antes de considerar cirurgia.

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