Bruxismo do sono: visão geral científica
O bruxismo do sono é uma atividade motora mastigatória que ocorre durante o sono, com origem predominantemente central no sistema nervoso. Entenda a diferença para o bruxismo de vigília, como é feito o diagnóstico e quais são as opções de tratamento.
Definição e classificação atual
Segundo o consenso internacional atualizado, o bruxismo é definido como "atividade dos músculos mastigatórios durante o sono (bruxismo do sono) ou durante a vigília (bruxismo de vigília), caracterizado como atividade rítmica (fásica) ou não rítmica (tônica), e não é classificado como distúrbio do movimento ou distúrbio do sono em indivíduos saudáveis".
A classificação atual reconhece três categorias diagnósticas:
- Bruxismo possível: baseado apenas em autorrelato.
- Bruxismo provável: baseado em autorrelato mais exame clínico.
- Bruxismo definitivo: confirmado por polissonografia com eletromiografia.

Diferenças entre bruxismo do sono e de vigília
| Característica | Bruxismo do sono | Bruxismo de vigília |
|---|---|---|
| Origem neurobiológica | Dominância do tronco encefálico; ocorre abaixo do controle consciente | Dominância cortical; relacionado à regulação emocional e estresse |
| Momento de ocorrência | Principalmente nas fases N1 e N2 do sono e transições entre ciclos | Durante horas de vigília, frequentemente durante concentração ou trabalho em tela |
| Padrão motor | Atividade mastigatória rítmica (RMMA) com 3-15 contrações por episódio | Predominantemente tônico (apertamento); contato dentário repetitivo ou sustentado |
| Consciência | Inconsciente; o paciente geralmente não percebe até relato de parceiro | Parcialmente consciente; mais acessível a intervenções comportamentais |
| Fatores associados | Microdespertares, apneia obstrutiva do sono, refluxo, neurotransmissores | Estresse psicossocial, ansiedade, hábitos comportamentais reforçados |
| Sintomas típicos | Dor muscular matinal, cefaleia temporal ao acordar, sons de ranger | Tensão mandibular durante o dia, dor que piora em períodos estressantes |
Existe também uma categoria emergente de bruxismo combinado (sono + vigília), que apresenta maiores prevalências e associações clínicas mais fortes do que as formas isoladas.
Etiologia e fisiopatologia
A etiologia do bruxismo do sono é multifatorial e envolve a interação de múltiplos sistemas:
Ativação do sistema nervoso autonômico, microdespertares, desregulação de serotonina e dopamina, e predisposição genética.
Discrepâncias oclusais e morfologia facial têm papel secundário em relação aos mecanismos centrais.
Tabagismo, álcool, cafeína, drogas ilícitas e higiene do sono inadequada.
Alterações na sensibilidade proprioceptiva, controle motor fino da mandíbula e excitabilidade de reflexos musculares.
Medicamentos que influenciam o bruxismo
Diversas classes de medicamentos estão associadas ao aumento do risco ou exacerbação do bruxismo do sono. O mecanismo proposto envolve desequilíbrio nos sistemas de neurotransmissão dopaminérgica e serotoninérgica que regulam o tônus muscular e a atividade motora durante o sono.
- Antidepressivos ISRS (fluoxetina, sertralina, paroxetina e outros) podem induzir ou agravar o bruxismo.
- Antipsicóticos que atuam no sistema dopaminérgico.
- Estimulantes do SNC usados em TDAH e outras condições.
- Drogas recreativas como cocaína e anfetaminas.
Desgaste dentário e consequências
Quando severo e crônico, o bruxismo do sono pode levar a consequências odontológicas significativas: desgaste dentário patológico, fraturas de cúspides e restaurações, hipertrofia dos músculos masseteres e temporais, linha branca na mucosa jugal, mobilidade dentária e recessão gengival em casos prolongados.
Estudos demonstram associação significativa entre bruxismo do sono, doença do refluxo gastroesofágico (DRGE) e desgaste dentário. Pacientes com refluxo e bruxismo apresentam maior severidade de erosão ácida combinada com desgaste mecânico, criando um ciclo vicioso de perda de estrutura dental.
Associação com refluxo e distúrbios do sono
A relação entre bruxismo do sono e DRGE é bem documentada: pacientes com refluxo têm 5 a 6 vezes maior probabilidade de apresentar bruxismo do sono. A acidificação esofágica aumenta a frequência de atividade mastigatória rítmica (RMMA), possivelmente por microdespertares induzidos pelo refluxo, ativação autonômica e irritação de vias nervosas compartilhadas com a musculatura mandibular.
Quanto aos distúrbios do sono, quase metade dos adultos com apneia obstrutiva do sono (AOS) também apresenta bruxismo. Em alguns casos, o bruxismo pode ter um papel protetor em ronco primário, ao reposicionar a mandíbula e abrir a via aérea. A coexistência com insônia também é descrita na literatura.
Tratamentos e manejo
O manejo do bruxismo do sono deve ser individualizado e multidisciplinar, considerando gravidade, comorbidades e impacto na qualidade de vida.
Placas oclusais (órteses de bruxismo) protegem os dentes do desgaste e podem reduzir a carga muscular, embora não curem o bruxismo. O ajuste oclusal como tratamento primário é controverso e não é fortemente sustentado pelas evidências atuais.


Relaxantes musculares a curto prazo, clonazepam em casos selecionados, ajuste de medicamentos que induzem bruxismo e, em casos selecionados, toxina botulínica (Botox) nos masseteres e temporais.
Higiene do sono, redução de álcool, cafeína e tabaco, técnicas de relaxamento, biofeedback e tratamento de DRGE, AOS e insônia quando presentes.
Neuroestimulação, neuromodulação e terapias direcionadas ao perfil somatossensorial são áreas de pesquisa em desenvolvimento.
O bruxismo do sono é um fenômeno complexo com origem predominantemente central, influenciado por fatores sistêmicos, comportamentais e farmacológicos. A distinção entre bruxismo do sono e de vigília é essencial para direcionar o tratamento. A associação com DRGE, apneia e insônia reforça a necessidade de uma abordagem interdisciplinar, envolvendo dentistas, médicos do sono, gastroenterologistas e profissionais de saúde mental.